Impromptu Op.2



     É tão difícil nomear um sonho.
     Ou dar nome ao dia que passou.
     Dar nome ao gosto da bolacha que acabou e, enquanto era transformada em mim, ainda carecia de nome para o gosto e para o sentimento de dar falta por ela - que você logo se dá conta quando vê o pacote quase ao fim e sente na mão os farelos do que não é mais, mas era e agora independe da forma original (o tempo e sua tarefa de mudar constantemente a originalidade das coisas).
     As letras, palavras, frases, periódicos, tentam delimitar um espaço entre o real e o imaginário; toda tentativa, frases, poemas, se perdem neste universo paralelo onde um abismo enorme se faz e impõe a lei de sofrer pela "incompletude", onde tudo parece carecer de nomes, de ser dominado.

     "Nominabo tibi omnia"
     O gosto se perde ao perder o nome - o desejo aumenta quando não se encontram denominações coerentes, o indomável é sempre desejado. Está na ponta da língua, expectativa do desejo na sua hora final, é desejado ardentemente.
     O universo, inspirando sonhadores, aspirando seus sonhos e suspirando em forma de constelações, todas as noites - por cima dos olhos nublados.
     Um filtro que colhe tudo que é incerto e coloca no céu escuro da noite.
     Ó inconstante anoitecer, estrelas lá no alto! Me prendam nas vírgulas que lhes formaram, talvez assim minha galáxia interior possa ter espaço pra sonhar noites mais longas, eternas.
     Finitos de meu infinito, quem sou eu?!