Suco de Lua

       De repente se viu em um ambiente iluminado como se fosse uma antessala de um enorme salão, de onde a luz vinha vagarosamente e só era possível ver o contorno dos objetos. O ambiente estava todo na penumbra.
       O anjo ao seu lado voava silenciosamente e perguntava (de uma forma que ela não podia explicar, sem falar nem emitir nenhum som, nem ao menos movia os lábios) coisas diversas que ela percebera que tanto fazia se ela respondesse ou não. Ele estava ali para ordenar seus pensamentos.
       - Tem algo que você gostaria de fazer? - a voz soava sem rumo.
       “Tem, tem muitas coisas que queria fazer, no entanto, não sei qual delas é de minha ou de vontade alheia”.
       (...)
       Læra olhou a sua volta e percebeu que tinha uma mesa onde a luz da lua batia e ardia sobre a superfície lisa, brilhando de forma difusa no ar quente e perfeitamente confortável daquele lugar. Estava pensando em coisas absurdas (...)
       - Gostaria de experimentar o gosto do suco da luz da lua – ela disse pausadamente, quase duvidando de suas palavras, sentindo um leve toque de insanidade e contrassenso no que dizia. O anjo permaneceu calado. Læra ficou inquieta. Seria possível fazer tal peripécia? 
       Olhou para o lado e se deparou com uma estante, onde um copo se fazia visível apenas pela silhueta em cima da mesa. Não se surpreendera nem um pouco pelo fato de ter visto a estante ali agora e depois de ter pegado o copo, ido um pouco adiante e olhado para trás, não tê-la visto mais, e vislumbrado apenas o horizonte vazio e distante a sua frente.
       - Já não me têm mais utilidade uma estante, para quê ela deveria permanecer lá?               Parecia perfeitamente sensata essa conclusão, por isso continuou a se aproximar da mesa, lugar onde não sabia o que iria fazer, mas parecia que chegando lá saberia. Olhou de canto para o anjo, na tentativa de conseguir uma ajuda, mas ele nada fez. Contemplando aquele brilho na mesa, pensou primeiro pela lógica como seria possível fazer aquilo.

       Passaram-se alguns minutos, ou talvez horas, ou dias! Não sabia dizer ela quanto tempo ficou ali contemplando o brilho na mesa. Demorou tanto, que notou uma anormalidade no momento: a lua – considerando que se aquela fosse uma situação que deveria ser encarada por lógica humana – deveria ter ido embora à muito tempo, ou pelo menos mudado de posição.

       Muito embora ela não possuísse um relógio para dizer exatamente quanto tempo permanecera ali, sentiu-se satisfeita pela lua não ter ido embora, e ficou feliz por ter podido pensar tanto no assunto e mesmo assim não ter perdido aquele momento, como se fosse uma fotografia viva e eterna, onde a lua nem sua luz não se demoram em ir-se embora nas contas do relógio. Como ela percebera a poucos instantes que era inútil tentar concluir as coisas por lógica humana, deixou-se levar pelos seus pensamentos e fez o que parecia, não sensato, mas mais divertido segundo sua vontade dizia.

       Fez o seguinte: A partir da linha que a lua formava na mesa com sua Luz, foi empurrando sua mão rente a mesa para a extremidade dela, como quem quer tirar as migalhas de pão de cima da mesa para sua mão logo abaixo dela. Percebeu que nada acontecia, então resolveu mudar a técnica, tentou pressionar um pouco a mesa com a mão para ver se extraía de lá (como quem extrai suco de uma laranja espremendo-a) o seu suco desejado.

       Foi extraordinário.

       No momento que pressionou a superfície lisa da mesa, sentiu um líquido gelado sair dali.        Uma sensação inexplicavelmente diferente de tudo o que ela já havia sentido! O líquido foi-se acumulando na redoma que ela fizera com as mãos e chegando até a extremidade da mesa, onde ela pusera o copo.

       Sentiu um arrepio quando o líquido começou a tocar o fundo do copo: era pesado como ferro! “realmente deve ser mercúrio líquido” tentara ela concluir o assunto, embora sentisse que seria desapontada invariavelmente. Vendo que o copo quase se enchera, tirou a mão da mesa e logo, sua mão e mesa, estavam limpas. A textura do suco era exatamente como mercúrio líquido (mais uma vez ela tentava concluir as coisas por lógica humana, mas era impossível chegar a algo concreto naquele lugar onde tudo era surreal) , mas só que brilhava como a luz da lua, era lindo!
       Pousou os lábios sobre a borda do copo e... Do quê mais preciso? Quando se segue a vontade e os sonhos o impossível é possível. "Que palavras sem sentido", pensou, pois já tinha acordado; e concluiu tristemente que era um sonho.


“Como me senti leve nesse sonho! Queria poder viver assim todos os dias!”


21-10-2012
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Este texto, originalmente, escrevi para satisfazer esta vontade que surgiu em mim, de beber a luz da lua, num dia que estive a contemplar a complexidade da indecifrável tonalidade da cor da luz frívola da lua sobre as coisas materiais. Me pareceu insensato tentar concluir algum sentimento em palavras, mas a tentativa quase sempre alcança uma proximidade aceitável do desejado. De certa forma me satisfez e sempre me recordo do suco de lua de maneira nostálgica, como se já tivesse realmente o experimentado .__.


A personagem Læra é a personagem principal de todas as minhas histórias e é um anjo da guarda que catequiza contando as histórias que se diverte escrevendo.

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