Diário de um vivente




27-11-2013 Quarta –feira
Escrevo este diário para ressaltar a beleza do cotidiano e suas pequenas maravilhas, ainda que por palavras falhas, mas não deixam de ser tentativas, assim como é a vida.
E também para deixar o ponto final por conta disto: http://goo.gl/3pDL6K

Acordei com desejos amanhecidos. Gosto de café velho na boca, rastros de um dia prazeroso que eu não desejava esquecer ou deixar estragar.
Levantei da cama da maneira que gosto de chamar “acordar transcendentalmente”, que consiste em levantar com o corpo físico enquanto o espiritual insiste em ficar deitado. Lavei a cara e preparei-me para levar a mãe ao ponto de ônibus. Passei um perfume, escovei os dentes, coloquei uma roupa aceitável e fui ao encontro do cotidiano da minha mãe, pois eu estava de folga do meu.
Estava garoando. Dividimos uma sombrinha, a da mãe estava guardada na bolsa. Depois de a mãe ter pego o ônibus, retomei os rumos a caminho do novo que se abria: uma manhã livre para minhas aventuras.  Quais? Não sei. Cada dia é um novo capítulo a se escrever (ou se deixar escrever?). E eis que encontro a Camille Zanette!
Como dalí eu estava voltando para casa, ela pediu para que eu a levasse até o Colégio Santa Cândida.
O reencontro da voz; o poder de tornar passado presente, o presente como um presente; chuva depois do sol.
Enquanto andávamos, depois de me acostumar, a letra tomou suas formas originais, ficou sans serif, depois se transformou, de súbito, em negrito e todas as imperfeições ficaram mais óbvias.
Estávamos cada um com uma sombrinha, o que não me agradava porque dificultava a conversa (tendo em vista o passeio que tive com a mãe). Também vi a possibilidade de criar esta situação que eu poderia chamar de inusitada (não fosse minha idéia do que é ou não inusitado). Imaginei, com minha vontade de ser criativo, toda a cena com as luxúrias que a linguagem cinematográfica pode oferecer, fazendo tudo parecer mais divertido (e se a vida não permitir que uma platéia a assista e não se enjoe, qual graça ela tem?), travelling para nos acompanhar, contra-plongée nas horas dramáticas e plano seqüência nas conversas prolongadas. Parecia tudo perfeito... As expectativas não são sempre assim?
Ela não aceitou a proposta como quem se ofende. Eu não quis insistir, pois percebi que não adiantaria (apesar de que eram 7:30 da manhã eu digo: como é preciso mais Nástienkas por aí!).
Chegando em casa, tomei café enquanto terminava a partida de xadrez, contra mim mesmo,  que eu havia começado no dia anterior e esperava dar 9:00hrs para ir imprimir uma partitura (Chopin, Mazurka Op.41 No.3) na gráfica mais próxima.
20 pras 9 o sol apareceu e, de repente, sumiu; como se dissesse “acordem vagabundos!”... Bem, cada um tem seus motivos...
A manhã estava extremamente agradável, talvez pelo encontro inesperado ou pelo efeito da voz amiga logo cedo. O clima estava perfeito para mais uma caminhada, para “colocar a cabeça no lugar”, pensei, apesar de não saber exatamente que lugar era esse, ou se ele já existira (em algum momento lúcido da minha vida) para que minha cabeça voltasse a ele.
Quando dei por mim já eram 9 horas! “Como o tempo passa rápido! Talvez ele seja realmente veloz, ou eu que sou lento demais para acompanhá-lo”, pensei.
       Resolvi, antes de sair, registrar como estava minha partida de xadrez, pois gostara muito de como as coisas iam andando.




(momento flashback reflexivo) Quando comecei o jogo estava dando prioridade total para as peças brancas (pois elas começam primeiro E ISSO DEFINITIVAMENTE NÃO É RACISMO). Em determinada parte do jogo notei que as pretas estavam ganhando... Foi surpreendente perceber (pois quando se concentra em algo outras coisas passam despercebidas, assim como o queijo que o carinha coloca no seu Subway. Você já parou pra reparar se ele coloca mesmo o que você pede? Tem mesmo gosto de queijo prata o que você come depois, ou nunca parou pra perceber? Ele tira o olho da sua cara pra escolher o queijo que você pediu ou só joga qualquer fatia de qualquer coisa que seja amarela e tenha gosto de farelo-de-borracha-Mercur-embutida no seu sanduíche? Huum? Huum?!!) que eu estava dando prioridade a um time enquanto o outro estava ganhando, e o pior, debaixo do meu nariz! (um nariz que eu pensava estar controlando – mas os narizes são assim, vide gripe, rinite e afins. Em Curitiba eles são especialmente treinados para nos propiciar injustiças).
Peguei minha agenda para ver a data do dia e reparei que o primeiro dia da semana era uma segunda-feira... Até minha agenda quer ser hipster! Quem diria, até os objetos inanimados, hoje em dia, gostam de aderir à modismos como o laicismo...
Sai de casa com a roupa do corpo, macambúzio, todo empoeirado por dentro e, como não era dia de limpeza interior, a preguiça era como o maná do deserto: enviado e abençoado pelos céus.
Antes de chegar à papelaria desejei que aquela atendente estivesse lá, para poder mais uma vez adentrar nos mistérios dela. Dei de cara com um atendente que era novo ali, pois nunca o tinha visto. Ela estava ao lado fazendo qualquer coisa que fosse...
Nunca deixo de tentar tirar algo mais de qualquer coisa, seja uma idéia subjetiva por meio de conclusão natural, como fazemos com tudo a nossa volta, ou seja, uma melhor análise sobre o que se encontra em minha frente, principalmente quando se trata de seres humanos, tão complexos e cheios de interpretações a oferecer.
“Fui desprovido de contemplar aquela alma lascívia, com lábios subliminares e olhar libidinoso. Talvez eu a chamasse de Rebeca, por mais que este não fosse seu nome real”, eu pensava, como se a vida fosse impressionante.
A impressora não estava funcionando, então fui à papelaria mais próxima, que cobrava o sétuplo do valor (de 0,10 para 0,70 centavos a impressão P&B)...
Agora agradeço àquela máquina que não estava funcionando, pois pude, pelo menos uma vez na vida, usar a palavra “sétuplo” (agora pela segunda vez). Duvido, e me orgulho copiosamente da capacidade de poder duvidar (visto o prazer que isto confere), que muita gente na terra tenha a possibilidade de dizer que, no decorrer da vida, teve um motivo plausível para escrever a palavra “sétuplo” (aqui escrevo, com hiperbólico prazer, pela terceira vez), em qualquer que seja o contexto em que se encontre.
Enfim. Prazeres literários à parte...
Pequenas conquistas, mesmo que muito pequenas e quase irrisórias, sempre nos fazem bem!
Lá me deparei com (mais) uma nova atendente, mais ou menos da minha idade, provavelmente mais jovem – o que obviamente me agravada – e com uma estonteante aparência (tinha os cabelos presos em quase-um-coque atrás, onde grande parte do cabelo fora jogado para o lado direito). Apesar de tantos acontecimentos que sugeriam que a vida estava, finalmente, conspirando para mim, conclui que talvez, naquele dia, a sorte estava de atestado médico e deixara um estagiário em seu lugar.
“Fiz o que devia” e fui embora.
Almocei virado com ovo, pimenta, rúcula e pra acompanhar (90% das vezes o que era para acompanhar vira atração principal) um vinho rosé. Como sempre a comida estava (se fez por meio de minha vontade) fantástica.
De tarde fui ao trabalho. Depois do trabalho fui ao estúdio do Diego para ouvirmos e tocarmos algumas músicas que a banda dele havia gravado (de maneira improvisada) antigamente e ele queria, agora, criar arranjos para finalizá-las. Fiquei tentando acompanhar com a flauta transversal, mas o meu não-dom-que-eu-insisto-em-achar-que-consigo-transformar-em-dom para flauta ajudou em estragar minhas tentativas. Eu estava com hora marcada para voltar para casa, pois iria buscar o meu PC que estava para conserto (é fácil de lembrar se é com “c” ou “s”. O concerto de música é só ler a palavra como se lê em italiano, “contcherto”. Assim fica óbvio que “conserto” nunca poderia ser lido da mesma maneira que é o “concerto” de música).
Vou ser breve (e indireto e impreciso): fui tolo e não fiz o que devia fazer. A vida não é mole com quem é tolo (“o sistema é implacável”, como diz um professor meu). Então a vida foi dura comigo. Apagou mais de 200 Giga do que eu, na maioria das vezes, achava ser meu. Agora estou em reabilitação, recuperando e aprendendo a usar melhor os Gigas que a vida me dá.
De noite, indignado, mas tentando “manter a cabeça no lugar”, fui reinstalando os programas que o PC anterior tinha. Pouco a pouco a noite foi deitando seu manto e pesando sono sobre meus olhos desejosos de eternidades e não limitações. Logo me vi a dormir e a deixar para trás, por escolha própria, mais um dia vivido, mas que precisou findar-se. Uma semente que morreu, para que a flor algum dia tenha cores vibrantes.


P.S.: Antes de colocar o que eu realmente iria colocar no "P.S.", só gostaria de comentar que depois do livro "P.S. eu te amo" virou clichê usar "P.S." e é até chato querer ser dramático com alguma informação no "P.S." pois nada vai superar o peso do título de um livro, que, por sinal, neste caso, é melhor do que o conteúdo.
P.P.S.: As peças brancas venceram.